A arte de reconquistar

                             Conto: A arte de reconquistar

Amauri Martins Cultura Por Nossos Colunistas

Conto escrito pelo prof./escritor Amauri Martins em 24/05/2024.

Aos trinta anos, Rolando levava uma vida dividida entre a rotina de executivo numa tecelagem e a paixão pelas manhãs de futebol seguidas pelo cinema de domingo. Uruguaio radicado em Porto Alegre desde a infância, acumulava conquistas e alguns desenganos amorosos.

Sua sorte mudou num lance involuntário: uma lesão grave o tirou do jogo direto para o hospital do bairro. Cirurgia feita, o diagnóstico previa de dois a três meses de licença e fisioterapia obrigatória.

Logo na primeira sessão, na sala de espera, cruzou olhares com uma paciente que saía da avaliação. Foi instantâneo. Havia uma cumplicidade ali que garantia uma boa companhia para os meses de recuperação.

A mulher era Valentina, empresária nascida em Bagé, que machucara o ombro ao subir numa escada para pegar umas peças no topo da prateleira de sua loja.

Com uma torção no pé, Rolando usava andador nas primeiras semanas e mal conseguia se mover. Valentina, com uma lesão mais leve, ofereceu carona. Não se largaram mais. A empatia virou romance, à vista de todos na clínica, e não demorou para ela convidá-lo a morar em sua casa.

Rolando admirava o vigor da parceira: sempre elegante, maquiada e carinhosa. Mesmo após receber alta, ela fazia questão de levá-lo e buscá-lo nas sessões, além de abrir espaço para ele trabalhar no escritório de sua loja de roupas. Fazer o faturamento dali devolvia ao executivo o prazer de se sentir útil.

Mas o cenário mudou com a chegada de Aline. Novata na clínica, a jovem de olhos claros chamou a atenção de Rolando logo no primeiro dia. O clima que surgiu entre os dois não passou despercebido nem pelos fisioterapeutas.

Conforme se recuperava, Rolando passou a dispensar a carona de Valentina, alegando que voltar caminhando ajudaria na reabilitação. O trajeto, porém, tinha outro motivo: ele esperava Aline sair do banheiro, onde ela se arrumava após a sessão. Juntos caminhavam até a escola onde a jovem fazia um curso de pequena duração. As despedidas, a cada dia, tornavam-se mais calorosas, terminando em encontros secretos na casa dele, onde o encantamento dava vazão a murmúrios e prazeres.

Valentina, por outro lado, entrara em uma zona de conforto. Já não se maquiava com frequência, andava desatenta e pouco conversava. No escritório, Rolando notava a diferença: enquanto a namorada parecia acomodada, Aline o cobria de elegância e atenção.

Não demorou para que o distanciamento virasse regra. Quando Rolando comunicou que voltaria para o seu próprio apartamento e para o antigo emprego, o diálogo entre os dois praticamente cessou. Consciente do esfriamento e com o coração machucado, Valentina o convidou para um jantar.

No restaurante, o ar era pesado. Antes de abrirem o cardápio, Rolando tomou a iniciativa:

— Quando te conheci, começou uma nova era para mim. O teu sorriso, o teu perfume, a tua dedicação em me levar à clínica… Tudo me fez crer que tinha encontrado a mulher da minha vida.

Antes que ele concluísse o término, Valentina o interrompeu com serenidade:

— Eu conheci pessoas que me encantaram assim como você, Rolando. E fiz de tudo para conquistá-las. Vestia-me como uma princesa, dava o meu melhor… até conseguir. Depois, por me sentir segura, deixava o relacionamento esfriar porque perdia a motivação.

Em silêncio, Rolando pensou: “Ela leu meus pensamentos antes de eu terminar”.

Como se lesse a mente do executivo, Valentina prosseguiu:

— Não te convidei para terminar, mas para pedir desculpas. Quando você dispensou minhas caronas e começou a voltar radiante para a loja, percebi a mudança. Reportando-me ao meu passado, vi que cometi o mesmo erro.

Diante da descoberta da traição de Rolando, Valentina ergueu a cabeça e concluiu, altiva:

— Você me ensinou como devo agir de agora em diante. Aprendi que é preciso reconquistar quem está ao nosso lado todos os dias, com humildade e dedicação. E não quero que fique comigo por gratidão.

Sem tocar no jantar, Valentina se levantou. Tocou suavemente os lábios dele com os seus e caminhou em direção à saída. No caminho de volta, refletia sobre a necessidade de transformar suas atitudes e se entregar com mais intensidade a tudo o que estivesse por vir.

Sozinho à mesa, o executivo respirou fundo. Pensou por alguns instantes, pegou o celular e ligou para Aline, convidando-a para juntar-se a ele naquela noite surpreendente.

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